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Comportamento

Vida nova: como acostumar o pet com a sua ausência em casa?

Depois de meses em casa por causa da pandemia, muitas pessoas já começaram a voltar ao trabalho ou a se dedicar às atividades de antes. Não que o coronavírus tenha acabado, pelo contrário, ainda é preciso ter muito cuidado ao sair de casa. Mas, de certa forma, as pessoas estão aprendendo a conviver com o “novo normal”. E como o pet vai reagir a isso?

Há quem diga que a nossa presença por mais tempo em casa só fez bem aos pets. Para outros, o “excesso” de atenção pode ter tornado os peludos mais dependentes.  Como fica a rotina dos peludos depois de meses ao lado dos tutores 24 horas por dia?

Conversamos sobre o tema com a etóloga e especialista em comportamento de cães e gatos Denise Falck. Dá uma olha no que ela nos contou!

 

Botica Pets – O que mudou na rotina dos pets com a presença dos tutores em casa?

O que a pandemia trouxe de mais impactante em nossas vidas foi o confinamento. E essa rotina a maioria dos animais não estava acostumado. Quem já trabalhava em casa, passou a ficar ainda mais. E isso provoca uma enorme mudança na rotina dos pets também. Nem todos os animais apresentam o mesmo comportamento a determinado estímulo. Todo ser vivo tem o seu próprio repertório de comportamentos e isso varia em função da genética, fatores ambientais, a influência da alimentação e muitas outras variáveis.

Como exemplo, um cão que dormia a tarde toda sozinho, que gosta de ter o seu momento de descanso, tinha o canto dele para fazer isso. Dormia e acordava descansado, tranquilo e esperava a família chegar. Isso mudou. Às vezes, esse cantinho dele se transformou em um canto de trabalho ou de estudos de alguém. Toda a dinâmica mudou e para ele também faz diferença. E isso impacta o bem-estar dele, uma vez que ele não tem o entendimento do que está acontecendo. Além disso, os pets também estão confinados, não vão passear, viajar, passar o dia no daycare, socializar. Para eles não faz sentido.

Então, alguns animais vão responder de uma forma não tão positiva. Os gatos, por exemplo, gostam de ficar sozinhos, de ter o controle do espaço, de descansar. Ainda com todo o enriquecimento ambiental, o vai e vem dentro da casa abala muito a rotina deles.

O que quero dizer é que as reações variam de indivíduo para indivíduo, porque para um a companhia pode ser boa, mesmo com a agitação. Nesse sentido, muitos podem não ter sentido os efeitos de forma negativa. Para outro, pode ser mais estressante. Por isso é importante observar o animal em casa e identificar os sinais de quando a situação não está legal para eles.

 

Botica Pets – Como saber se os pets ficarão bem em casa após a quarentena?

É muito difícil de prever se o pet ficará bem em casa sozinho. Se o animal está bem em casa com a família, com toda a atenção, pode desenvolver uma dependência e um apego maior. A nossa saída “repentina” após a quarentena pode causar um impacto, por não ser gradativa.  Acredito que eles darão sinais para o tutor possa entender o que eles estão sentido: cães ansiosos, que andam atrás, que vigiam, que não descansam direito, buscam atenção o tempo todo. Esses são alguns dos sinais de alerta de que o pet poderá sofrer quando o tutor não estiver perto. Outros podem viver normalmente dentro de casa com a nossa presença ou não.

Por isso é importante notar e já começar a trabalhar o comportamento desses pets para que os efeitos não sejam muito impactantes na qualidade de vida deles. Porque eles não têm a compreensão do que está acontecendo.

 

Botica Pets – Quais são os sinais que o pet pode demonstrar que está sofrendo com a ausência do tutor?

Os sinais mais evidentes na minha experiência são os comportamentos ansiosos e de apatia. Alguns cães e gatos demonstram uma ansiedade grande quando o tutor chega em casa, com uma intensidade além do normal, como se tivesse “corrido uma maratona” dentro de casa, tamanha é a agitação. Outro comportamento que chama atenção é o animal que não se move quando está sozinho em casa. Não bebe água, não come, não faz xixi, não explora o ambiente.

É fundamental notar esses comportamentos. Para evitar o problema é importante fazer a transição no momento que a rotina vai mudar de novo, para que o pet vá acostumando com a saída progressiva da família. Quando isso não é possível, é bom observar bem o comportamento dos animais.

Qual a rotina deles? Quantas vezes fazem xixi, se lambem as patas, se lambem o focinho, se engolem ar, se andam em círculos, correm atrás do rabo, se descansam ou não durante o dia, se vocalizam ou latem por estímulos de fora. Esses comportamentos precisam ser observados para que os tutores saibam quais são os mais comuns no pet. Porque se isso muda por ansiedade, estresse ou doença, o tutor poderá notar mais facilmente.

 

Botica Pets – O que o tutor pode já começar a fazer para que o pet se acostume a ficar sozinho novamente?

O meu conselho é já começar a treinar desde agora os pets a ficarem sozinhos. Este treinamento pode ser separado em duas etapas: o treinamento em casa e fora. Em casa temos muitas oportunidades de trabalhar esse distanciamento físico e visual. Como exemplo, quando for no banheiro, o tutor deve fechar a porta e o bichinho vai se acostumando com a ideia de que ele não pode controlar tudo o que a família faz na casa. Outro exemplo é quando for trocar de roupa no quarto, fazer um lanche na cozinha, à medida que você nota que o bichinho aceita não fazer o contato visual. Assim, não é preciso parar a sua rotina para fazer o treino. Essas pequenas pausas durante o dia servem para ir treinando o pet.

Alguns pets podem chorar, latir e raspar a porta. Nesses casos, eu aconselho ter mais paciência. Ao invés de fechar a porta e passar 15 minutos sem ver o pet, vale a pena fechar a porta e contar 1 minuto. A ideia é que eles tenham sua dependência dentro de casa, tenham vida própria e que encontrem outras atividades em casa, que sejam divertidas. Vale investir no enriquecimento ambiental para que eles se sintam bem em casa e fiquem tranquilos quando estiverem sozinhos.

Já a etapa dois, o treinamento é fora de casa. Neste momento, o tutor deve usar a porta de casa para fazer o treinamento. De novo, aproveite os intervalos da sua rotina para isso. Vá tomar um café, ler uma mensagem ou outra coisa. Para isso, saia de casa e volte por um tempinho. Volte como se nada tivesse acontecido, seja natural, como se estivesse em casa. Se você não der importância para isso, os pets também não vão dar.

Outra dica é não ficar chamando o tempo todo para saber onde o pet está. Deixe o animal mais tranquilo, no canto dele. A troca afetiva é importante, mas eles precisam ter vida própria, explorar o ambiente, cheirar o ambiente, brincar sozinhos. Promova a independência do seu animal, pois assim eles vão descobrindo outras coisas que vão além da presença física da família.

 

Botica Pets – Pode sugerir algumas técnicas de enriquecimento ambiental para o tutor colocar em prática?

Para os cães agitados, vale a pena oferecer uma atividade que o ajude a se acalmar. Por outro lado, o pet que dorme demais ou que está entediado, deve receber uma ajuda para se movimentar e se motivar. Também é importante observar o tipo de brincadeira que o pet gosta.

Alguns exemplos são os brinquedos dispensadores de alimentos, usando parte da refeição diária. Isso estimula o seu instinto natural, caçar, se mover para comer. É preciso ensinar ele a brincar, mostrando como funciona para que eles entendam. E o estímulo de cair a comida gostosa vai incentivar o pet. Também pode usar outros alimentos, frutas e legumes, com a orientação do veterinário. Um exemplo é o salsão e a cenoura, que tem boas texturas e não são hipercalóricas.

Outros brinquedos como o kong, que não exigem uma grande movimentação. Ideal para pets idosos ou que tem limitação na movimentação. Eles vão tentar retirar o alimento com a língua e isso vai entretendo o animal sem a necessidade de grande movimentação. Isso pode motivá-lo por muito tempo e com o tempo, o tutor pode aumentar a dificuldade com alimentos mais duros, congelando o conteúdo. Agora, se ele desistir no meio do caminho, vale a pena reduzir a dificuldade, pois a ideia é que ele se divirta.

Ossos de material sintético são interessantes. Não são tóxicos, não quebram, não fazem mal ao pet. O comportamento de roer é importante para reduzir o estresse do animal. Também vale a pena investir em treinos com o pet, o que gera um vínculo importante com o tutor. Esconder “recompensas” pela casa também é interessante para que ele explore o ambiente e seja mais feliz onde ele vive.

Para os gatos, também vale a pena investir nos dispensadores de alimentos. No entanto, o gato é mais seletivo para comer e o desafio é encontrar um petisco que eles tenham interesse. Eles gostam também da peninha que fica balançando, graminhas que podem comer, escalar móveis e estantes, caixinhas de sapato, brinquedos com rolos de papel higiênico, laser, etc. O importante é que o gatinho consiga o “prêmio”, a caça, pois senão eles se frustram. Eles gostam de entrar nas gavetas de móveis e dos armários. O importante é sempre respeitar e privilegiar o que pet gosta de fazer.

 

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